Léo Luz on July 1st, 2011

O Descomplica é uma série de vídeos que eu escrevi para a Mellin Vídeos, para a Oi TV. São dez programetes que têm como objetivo explicar um pouco mais sobre o canal e sobre detalhes de programação, sinal, pagamento etc. Os temas  eram pré-definidos, e o briefing era que os vídeos, ao mesmo tempo que explicassem os assuntos de forma a ficarem compreensíveis para o público, trouxessem um pouco de humor. Abaixo os vídeos prontos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Léo Luz on March 21st, 2011

- Porra nenhuma! Tô na merda da ponte ainda. Saí de casa oito e meia e ainda to parado aqui. É. Ouvi no rádio que uns caras do Green Peace estenderam uma bandeira, sei lá, no vão central da ponte e essa porra ta parada. Tomar no cu, esses filha da puta não têm mais o que fazer não? Não fode! Que se foda o clima! Cambada de filhinho de papai desocupado, se eu pego um maluco desse quebro os córnos deles. Ta. Eu sei, porra, daqui a pouco eu to aí. Tchau. – Flávio gritava no telefone. Saiu de casa há uma hora, e em um dia normal ele já estaria no trabalho há vinte minutos. Mas hoje não estava nem no meio do caminho ainda.

 

          Ana olhava pra baixo, com um nó na garganta. Ela era uma profissional, já havia feito milhares de descidas de rapéu, mas o vão central da Ponte Rio-Niterói tinha 60 metros. Além do medo da morte certa em caso de queda, ainda teria que enfrentar a polícia se tudo “desse certo”. Ela tomou fôlego e começou a descer. Ao ver o resultado ela perdeu o medo: eles conseguiram. A bandeira estava lá. Agora era descer até o fim e esperar tudo acabar.

 

          Flávio chegou atrasado no trabalho, xingando os “filhos da puta do Green Peace”. Com o trabalho atrasado em mais de duas horas ele só pôde almoçar pelas três da tarde. Isso sem falar que o cliente com quem ele tinha uma reunião às dez tinha ficado praticamente irredutível quanto a remarcar o encontro, mas foi demovido por Flávio em virtude dos acontecimentos. Se ele pudesse mandava uma carta bomba pra sede do Green Peace.

 

          Na delegacia o delegado perguntava por que eles haviam feito aquilo. Ninguém falava. Juntos em uma cela pequena, Ana e os outros sete que participaram da ação aguardavam a chegada do advogado, sob os olhares furiosos dos guardas e do delegado. Ana estava com muito medo de alguma coisa dar errado e ela ficar presa. Resolveu falar ao delegado e desandou a discursar sobre o meio-ambiente, o aquecimento global e a extinção das baleias, mas não o comoveu. Voltou pra cela, chorando copiosamente.

 

          Nove da noite. Em um dia normal, o expediente acabaria às sete. Mas só agora Flávio consegui sair do escritório. A convite de um amigo, o Celso, seguiu para um bar no Centro da cidade antes de ir pra casa. Não queria ver aqueles filhos da puta na televisão. Pediram duas cervejas e, até que elas fossem oito em cima da mesa, o assunto não mudou em nenhum momento: só falavam daquilo. Para um especialista em mercado financeiro, pouca coisa poderia ser tão idiota no mundo quanto aquilo.

 

          Tudo deu certo: a organização pagou a fiança e todos foram soltos. Seguiam todos pro albergue de onde voltariam cada um para o seu estado no dia seguinte, mas Ana não quis. Ligou para uma amiga que morava no Rio, a Cláudia, e desceu da van na Praça Mauá, e encontrou com a amiga. Depois de contar toda a sua aventura, seguiram para um bar próximo, onde a amiga encontraria o namorado. Entraram no bar procurando pelo namorado de Cláudia. Ela dera uma descrição para a amiga, que estava ajudando a procurar. Depois do que havia acontecido durante o dia, pouca coisa poderia chamar mais a atenção em um happy hour do que uma camiseta verde do Green Peace, como a que Ana estava usando. Enquanto Ana olhava fixamente para um sujeito sentado em uma mesa, Cláudia pegou-a pela mão e foi caminhando rapidamente em direção àquela mesma mesa. “Muito azar”, pensou Ana. “O cara é uma gracinha e é namorado dela”.

 

          Chegaram na mesa, apresentações formais. Ana, esse é o Celso, meu namorado. Esse é o Flávio, amigo dele. Flávio, essa é a Ana. Os dois, Ana e Flávio, não paravam de se olhar. A primeira coisa que Flávio pensou foi: “fudeu! Eu aqui falando mal desses filhos da puta o dia inteiro, e essa patricinha linda deve ter ido a Londres no verão e comprou uma camiseta deles”, enquanto Ana se lembrava de que Cláudia havia comentado que o namorado dela trabalhava em um banco multinacional, e que toda a equipe tivera que fazer hora-extra até as nove da noite por causa do engarrafamento na ponte.

 

          Durante a conversa, Flávio, para impressionar, disse que estava largando o mercado financeiro, e que o protesto feito pela manhã o havia alertado de que não era aquela a vida que ele queria. Ana, com receio de ser culpada pelo namorado da amiga de alguma coisa, disse que comprou a camiseta da ONG em uma visita a Fernando de Noronha, que até gostava deles, mas os achava muito exagerados. Três anos e meio depois, durante uma bebedeira, os dois disseram toda a verdade um ao outro sobre o dia em que se conheceram. Riram muito mas ambos tinham que concordar: muita coisa havia mudado. Flávio largou mesmo o mercado financeiro e abriu uma empresa que investe em micro e pequenas empresas nacionais do ramo de ecologia e educação. Ana nunca mais voltou pra Brasília e tampouco se reintegrou ao Green Peace. Terminou a faculdade de administração no Rio mesmo e agora trabalhava em uma empresa de marketing esportivo. Ambos concordaram que além de ter valido a pena ter chegado atrasado ao trabalho ou ter ficado presa uma tarde inteira naquele dia, agora teriam uma estória e tanto pra contar pros netos. E tudo por causa daqueles filhos da puta.

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Léo Luz on March 21st, 2011

Detalhe de plantas na chuva. São vasos em uma bancada de concreto. A chuva é forte e dobra os galhos e as folhas. Ao fundo ouve-se o som de passos apressados e curtos, como se subissem uma escada. A câmera vira a vemos LUIZ FERNANDO, molhado e sem fôlego, na portaria de um prédio.

 

LUIZ FERNANDO

 

PORTEIRO (sem tirar os olhos da bíblia que estava lendo)

O som das pessoas falando é bem alto e, ao fundo, um som de videogame e crianças gritando. Com este som em BG (background), Luiz Fernando vai entrando e vai cumprimentando as pessoas. Um casal de uns cinqüenta, sessenta anos o abraça e ele beija ambos, com intimidade de longa data. Um rapaz alto, forte também o abraça e parece feliz em vê-lo. Ele vai entrando, falando com as pessoas, até que uma menininha de cabelos escuros e olhos grandes e expressivos, de repente, pula no seu colo. É LAURINHA, filha do aniversariante.

 

LAURINHA (praticamente gritando)


LUIZ FERNANDO

 

LAURINHA

 

E Laurinha sai puxando Luiz Fernando por entre as pessoas, até que chegam até LEO E FABIANA, respectivamente, o aniversariante e sua esposa.

 

LEO

 

LUIZ FERNANDO

 

LEO

 

E Leo guia Luiz Fernando até uma mesa. A câmera mostra, em CLOSE, uma por umas das pessoas que o Leo apresenta a Luiz Fernando. Antes disso, a câmera fica em Leo e Luiz Fernando, só saindo deles quando Leo apresenta a primeira pessoa.

 

LEO

 

Luiz Fernando levanta a mão e sorri. Ele ainda olha para o lado direito da mesa, e ainda não olhou para a mesa toda.

 

LEO

 

A câmera segue as pessoas conforme Leo fala seus nomes. Roberto e Alexandre fazem o gesto de “oi” com a mão levantada, no que são retribuídos no gesto por Luiz Fernando. Quando a câmera alcança ALICE, a palavra “Alice”, dita por Leo, ganha realce, e o som ao fundo cai, ficando somente o nome dela, repetido em eco umas três vezes. Neste momento, CAI O SOM AMBIENTE e sobe trilha. A música é Aint she sweet”, dos Beatles (http://www.youtube.com/watch?v=Oo7bdWJMYr0). Todo o trecho a seguir é sem som ambiente, somente com a trilha, em CÂMERA LENTA. Ela estava vendo algo no celular, e ao ser apresentada, levanta a cabeça e dá um leve sorriso sem jeito, fechando um pouco os olhos. Alice é uma mulher linda, de cabelos vermelhos, rosto afilado, pele muito branca e vestia um vestido claro, leve, como um vestido de pic-nic, destoando do clima de casacos e guarda-chuvas da noite. A câmera volta para Luiz Fernando, ainda em câmera lenta e mostra este embasbacado, olhando fixamente para ela. DE REPENTE, a trilha cai e ouve-se a voz de Leo, como se ele estivesse falando antes e Luiz Fernando não estivesse ouvindo.

 

LEO

 

Nisso, Laurinha vem correndo e puxando Luiz Fernando pelas mãos.

 

 

LAURINHA

 

Ela fala isso e sai puxando Luiz Fernando, que vai com ela mas continua olhando para trás, para Alice. A câmera volta para a mesa e fecha em Roberto e Alice.

 

ROBERTO

 

ALICE

 

Nisso Alice abaixa a cabeça e, disfarçadamente, fita Luiz Fernando, que já joga videogame com Laurinha. Depois de uns cinco segundos olhando para Luiz Fernando disfarçadamente, ela dá um sorriso suspeito, semi-cerrando os olhos e, nesse momento, a trila volta somente com os versos “Yes I ask you very confidentially: Ain’t she sweet?”. CORTA PARA.

 

Agora estão na mesa Alexandre, Roberto, Alice e Luiz Fernando. Luiz Fernando conversa efusivamente com Roberto algo que não conseguimos ouvir por causa do som ambiente. Ao fundo de Luiz Fernando e Roberto, vemos Alice, olhando fixamente para Luiz Fernando, sorrindo largamente. CORTA PARA

 

Sequência de cenas de trocas de olhares e sorrisos entre Luiz Fernando e Alice, com o som ambiente ao fundo. CORTA PARA.

 

 

As pessoas estão indo embora, e Roberto, Alexandre e Alice estão se despedindo. Ao se despedir de Luiz Fernando, Alice parece um pouco incomodada, tímida. Eles se despedem com beijos no rosto e a câmera flagra Alice olhando para trás enquanto vai embora, para Luiz Fernando. Tudo isso ainda com o som ambiente da festa. CORTA PARA.

 

Luiz Fernando está na cama. Pega o celular, pede o telefone de Alice para Leo e envia uma mensagem para ela. No celular, lemos o seguinte texto: “Vamos a um churrasco amanha, querem ir”? Luiz Fernando guarda o celular. DETALHE do relógio, em velocidade acelerada. Se passam uma hora e meia, até que a luz do celular acende e lemos “Nova mensagem”. Luiz Fernando abre e lemos uma mensagem, de Alice: “Pode ser. Vou falar com o Roberto, estou hospedada na casa dele. Beijos”. Luiz Fernando faz uma cara de desolado, fita o celular por alguns segundos e deita.

 

LUIZ FERNANDO

 

 Em alguns segundos, a luz do celular acende de novo e Luiz Fernando vai ver o que é. É uma mensagem de Alice, com o seguinte texto: “Luiz Fernando. 8542-5458”. Por uns instantes ele não entendeu a mensagem, no que recebeu outra, na sequência: “Desculpa. Fui salvar o seu número e te mandei uma mensagem sem querer”. Luiz Fernando dá uma gargalhada, guarda o celular e vai dormir, sorrindo muito, e pensa alto.

 

LUIZ FERNANDO

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Léo Luz on March 21st, 2011

           Dizem os chineses que é através dos pequenos detalhes (com pleonasmo) que se descobre um mentiroso, uma pessoa apaixonada e um mau cirurgião plástico. Mentira, nenhum chinês nunca disse isso mas eu precisava corroborar minha tese. Enfim, continuemos. A idéia central deste ditado chinês do camelô é que as grandes características e traços são fáceis de fingir e falsear. Mas os detalhes, amigos, estes são as verdadeiras provas do crime.


          Em todos estes anos como Narrador Onipresente, admito que aquela foi uma das cenas mais cheias de significado que já presenciei. Era uma simples viagem de ônibus entre Porto Alegre e Caxias do Sul. Eu estava rondando por lá, procurando estórias em busca de um narrador, quando a vi. Ela jamais chamaria a atenção de uma pessoa normal. Mas eu, como Narrador Onipresente e com um ótimo faro para estórias interessantes, logo vi que ali estava uma personagem ímpar de uma bela estória. Bom, como todo narrador que se preza eu devo fazer uma descrição bem bacana da personagem e eu não vou fugir à regra.


           Eram umas onze da manhã e poucas pessoas dormiam no ônibus, apesar de a viagem ser um pouco longa – em torno de duas horas. Em uma poltrona no corredor, uma senhora tentava fazer uma criança parar de chorar, no que fracassou durante todas as duas horas da viagem. Do lado desta senhora, estava, como a denominei, a Menininha Ruiva. Ela estava com o banco recostado, como que deitada. O rosto colado no vidro, de olhos fechados. Era muito, mas muito branca. Poucas vezes vi uma pele tão branca. E seus cabelos eram vermelho fogo, e estavam presos em um coque no alto da cabeça. Até aí, uma pessoa normal que jamais chamaria a atenção de um Narrador Onipresente como eu. Mas dois detalhes me fizeram querer me embrenhar naquela estória: o sorriso e o casaco.


           Ela vestia um moletom horroroso, listrado, roxo com preto. Não combinava em nada com ela. Nada. Parecia mais um moletom de um mendigo ou de um desabrigado. Feio mesmo. Mas a maneira como ela o vestia era uma coisa simplesmente incrível. Ela estava, como disse, vestida com ele. Porém, as mangas, longas, ficavam sobrando nas mãos. E esta sobra de tecido, os punhos, estava embolada e servia como uma espécie de travesseiro. Mas não era só isso. Era um travesseiro que ela acariciava com a cabeça, como se fosse a mão ou o ombro do amado. Ora ela acariciava o tecido com o rosto, ora se afastava um pouco dele para olhá-lo com uma ternura que poucas vezes presenciei. Quando o sol começou a incidir sobre o ônibus, ela tirou o casaco, o embolou como um travesseiro gordo e o abraçou. Quem olhasse de relance acharia que ela abraçava um gatinho. Ela abraçava e acariciava o casaco com o rosto, com as mãos…  E o sorriso? Durante as duas horas e doze minutos da viagem ela manteve no rosto o mesmo sorriso que somente as pessoas que estão pensando no ser amado são capazes de sorrir.


          Chegando o ônibus ao seu destino, ela vestiu o moletom e saiu andando pelas ruas. Volta e meia ela esfregava a manga comprida no rosto e semicerrava os olhos. E isso se repetiu durante todo o dia. Como sou um Narrador Onipresente de boa estirpe, posso lhes dizer que aquele era o moletom do namorado da Menininha Ruiva, e eles haviam acabado de passar um fim de semana intenso e maravilhoso juntos. E, quando fui pesquisar mais sobre a estória dos dois, descobri que detalhes – como o sorriso ou o casaco – não só são importantes como são a tônica deste amor recente mas fiel.
Detalhes, como o email que ela envia TODOS OS DIAS, há exatos 25 dias, para ele, um pela manhã e um à noite. Um para ele ler no engarrafamento de ida para o trabalho, outro para ser lido na volta. Detalhes, como o fato de ambos que sempre foram completamente avessos a fotos, terem tirado algo perto de 100 fotografias juntos durante o fim de semana, e agora estarem as exibindo aos quatro ventos, para quem quiser ver que eles estão felizes. Detalhes que as pessoas não percebem. Que eles não percebem. Que ninguém percebe. Mas que, para um Narrador Onipresente como eu, são o suficiente para previr que esta estória do casaco ainda vai ver contada na mesa do jantar, para os netos, e vai ser motivo de boas gargalhadas e sorrisos de cumplicidade. Só espero que não se esqueçam deste humilde Narrador, que lhes prestou um serviço honesto e de coração, e ainda arrumou uma utilidade poética praquele moletom horroroso.

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Léo Luz on March 21st, 2011

Este conto é uma versão para a música do Noel Rosa "Quando o samba acabou". Leia a letra neste link. As letras dos sambas foram escritas pelo Leonardo Lanna, AKA @microcontoscos. Mas na época ele não era famoso e foi uma honra pra ele escrever pra mim.

 

 

Naquela última sexta-feita de um outubro marcado pelos fins de semana chuvosos, não havia chovido. Claro que a chuva não fazia parar o samba, mas naquela sexta, sem chuva, o samba teria rolado mais alegre que de costume. Teria. Naquele dia o sol, ao raiar, sentiria falta do que viria buscar nas primeiras horas da manhã: o samba. O sol iria subir, absoluto e, depois de anos e anos no mesmo ofício, naquela manhã não poderia, ao nascer, levar embora o samba. Ainda que ninguém soubesse disso no morro. Mas outra coisa seria levada pelo sol naquela manhã de primavera. Coisa essa tão estimada pelos moradores do morro quanto o próprio samba. E por mais que o sol fizesse sempre a tristeza dos malandros ao levá-lo embora, o que ele levaria naquela manhã haveria de entristecer o morro como jamais se havia visto. E ao se levantar para anunciar o novo dia, traria consigo não a euforia por mais uma noite de samba, mas sim uma enorme cruz de madeira, enorme, bem no alto do morro.

 

Esta estória começaria a tomar contornos dramáticos há algumas horas. Rosinha era dessas negas de parar passeata do PT. Secretária em uma agência de publicidade na zona sul, andava sempre nos trinques: cheirosa, cabelos com cachos compridos cuidadosamente esculpidos toda manhã, roupas que não chegavam a ser vulgares, mas que também passavam longe de esconder todo o material. Era conhecida por não dar bola pra ‘vagabundo’, como ela mesma dizia. No caminho de casa pro trabalho, descendo o morro, em menos de quinhentos metros andando a pé, sua passagem causava dezenas de torcicolos, centenas de assovios e alguns beliscões das esposas enciumadas. E se pra trabalhar ela se arrumava assim e causava esse efeito, imagina o amigo como essa mulher ia pro samba às sextas-feiras.

Rosinha era responsável por pelo menos metade da lotação do samba. Todos os homens – e algumas mulheres, maldita modernidade! – esperavam ansiosos a chegada de Rosinha ao samba para, enfim, tomarem parte na festa. Sempre desacompanhada, Rosinha se fazia de desentendida e se acabava de sambar, se rindo toda por dentro sabendo do furdunço que causava. E nem adianta. Nada abalava as estruturas de Rosinha: engomadinho, nego perfumado, sambista cheio de ginga, nada disso merecia sequer dois dedos de sua prosa. Mas naquela sexta-feira, sete dias antes da cruz no alto do morro, isso haveria de mudar.

 

Dois malandros resolveram sair mais cedo do samba. Um, um nego engomado, cordão de outro e anel com brasão, com a fome que tava teve que ir embora mais cedo pra matar um angu no Seu Chico. O outro, um branco com ar de vagabundo, cabelo desalinhado, jeans e regata branca, se cansou das mulheres cheias de pompa lá naquela noite, se empombou e foi-se embora. Estavam os dois, um tomando um refrigerante depois de comer o angu, e o outro fumando um cigarro antes de tomar o rumo de casa. Estavam, sem se conhecer, a menos de dez metros de distância um do outro. Foi quando o destino, morrendo de inveja das peças de Nelson Rodrigues, resolveu criar uma situação com os três que eu não vou falar qual é pra não estragar o resto da estória.

 

Pois então. Enquanto o branco abaixava a cabeça pra acender o cigarro a salvo do vento e o preto limpava uma gota de refrigerante que caíra na sua blusa, Rosinha despontou lá na esquina. Estavam os dois tão absortos em seus afazeres que nem perceberam a aproximação da beldade. Mas quando ela estava bem pertinho, mas bem pertinho mesmo, eles levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Parece que foi pelo cheiro. E Rosinha, encantada com os dois, fitou a ambos: primeiro o preto, depois o branco. E ambos corresponderam, porque nenhum dos dois era do tipo que passava esmalte nas unhas pra ir pro samba. E assim ficaram, os três se olhando: eles pra ela, e ela pra eles. Cada qual achando que era para si. Só depois que ela parou de olhar, jogou o cabelo e saiu andando chacoalhando os quadris mais que Milk shake de fastfood é que eles perceberam a presença um do outro. E aí os sorrisos se desmancharam, o refrigerante foi jogado no lixo e o cigarro apagado num poste.

 

Prevendo uma briga mais feia que mudança de pobre se aproximando, Seu Chico sugeriu o seguinte: se eram os dois do samba e do morro, que resolvessem à velha maneira: aquele que improvisasse o melhor samba poderia ir atrás de Rosinha e, se já a houvesse perdido de vista, seria dono único de seus olhares na próxima sexta-feira. Mas claro que eles ainda não sabiam que não ia ter samba na próxima sexta, isso é um segredo meu e de vocês. Pois como num raio, o cigarro se acendeu de novo nas mãos do branco e um copo de cachaça foi pedido pelo preto. E com mais uns sete ou oito sujeitos ao redor, teve início a peleja.

 

Como não houvesse acordo de cavalheiros – nunca há quando um lombo daqueles está em jogo – Seu Chico declarou: – estamos no morro, então começa o preto. Nada pessoal, rapaz, nada pessoal. E começou o preto, num ritmo cadenciado de samba de Cartola, cantando quase sussurrando:

 

"Na zona sul ou no samba

Eu sou tudo que ela pode querer

Preto, do samba, alinhado

E não um branquelo como você"

 

No que o branco, pra espanto geral da pretaiada sambista ali presente, respondeu de bate-pronto:

 

"Pelo que se vê no samba

Preto alinhado não faz seu tipo

Lá ela passa a noite sonhando

"Não há nesse samba um só branco pro meu bico?"

 

O preto agora tava com mais pressão em cima do que zagueiro que fez gol contra. O branco mostrou que, apesar de branco, de samba também entendia. Mas sem muito pensar, o preto já engatou:

 

"No samba ela fica sozinha

De tanto branco pomposo que fica em cima

Mas isso é porque ela ainda não encontrou

Um preto assim tão bom de rima"

 

E o branco, calmo que só caixa de banco gorda lixando as unhas com os óculos no nariz, não se fez de rogado, e, rápido no gatilho, deixou o preto embasbacado (a rima aqui foi sem querer, mas modéstia a parte, se o narrador entrasse na disputa não tinha pra nenhum dos dois):

 

"A preta não procura rima

Nem linho nem adereço

Mas sim alguém que lhe aqueça as entranhas

E é aí, camarada, que eu a ganho com meu apreço"

 

O preto quase teve um troço. Tentou começar uma frase, mas gaguejou em três tentativas. Seu Chico teve que intervir. Declarou vencedor o branco, que em respeito e medo da pretaiada, nem comemorou. E antes de se virar para ir atrás da sua prenda, foi interrompido pelo preto, que lhe dera os parabéns e lhe pedia um cigarro com paga para o dia seguinte. O branco, humilde e se borrando de medo da cara de decepção dos presentes, falou antes de ir:

 

- Queísso, meu irmão. Toma lá o maço. Já tive minha alegria de hoje. Carece de paga não, pode ficar.

 

E se virou, mais alegre que criança em dia de Cosme e Damião. Que sua alegria contrastasse com a tristeza do preto, era de se esperar. Mas o que não se esperava é que os olhares de raiva e de frustração não fossem dirigidos a ele, mas ao preto. O preto havia envergonhado a todos e perdido a preta mais cobiçada prum branquelo de fala mansa. E no que, num canto da rua o branco sumia numa esquina atrás do que lhe era devido, o preto acendia um cigarro, com olhar distante, e se dirigia à outra esquina. E ficaram, no meio do caminho, os outros pretos, envergonhados e cheios de ódio do seu irmão de samba, de morro e de cor. A raiva era tanta que o punhal que estava guardado para uma eventual reação violenta do branco fora guardado e desistiram de usá-lo, tamanha decepção.

 

E por horas ficou o preto lá, sentado na esquina, com um olhar vago e o cigarro queimando entre os dedos. E assim o sol chegou, levando consigo o samba e jogando por terra o sangue do preto. Fora encontrado estirado na ribanceira, com uma estocada no coração, caído ao lado de um maço de cigarros. Naquele início de manhã ninguém cantou o fim do samba. E naquela manhã de primavera, a vida do preto havia sido levada pelo sol, junto com o samba. O preto era querido no morro. Amável, prestativo e educado. E hoje, sete dias depois, o sol subiu solitário. Não teve o samba como companhia. O morro ainda estava de luto pelo preto. A única coisa que fazia companhia àquele sol minguado era uma enorme cruz de madeira, fincada no alto do morro, perto da ribanceira. Fora Rosinha que a havia posto lá para homenagear o preto. E o branco? Bom, o branco não conseguiu beliscar a rosinha. Sabe como é, brasileiro adora ficar do lado de quem perde…

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Léo Luz on March 21st, 2011

É perfeitamente possível estimar a idade de um homem, ou pelo menos a idade mental dele, a partir do tamanho da bunda da sua companheira. Mas quando eu digo tamanho entendam que me refiro ao conjunto “tamanho + beleza”, até porque se você namora uma lutadora de Sumô a minha primeira frase cai por terra.

Há muitas maneiras de se medir o grau de maturidade de um homem. Se ele joga playstation, por exemplo, ele é um imbecil imaturo. Afinal, qual adulto maduro e sóbrio hoje em dia não tem – ou pelo menos deseja ter – um Xbox? O número de proparoxítonas em uma frase, as gírias que ele usa, a migração das cuecas estilo boxer e sunguinha para as confortáveis samba-canção, até alcançar a perfeição: a liberdade absoluta, enfim, são muitas as maneiras de se medir a maturidade de um homem. Mas nenhuma se compara à bunda de sua companheira.

Quando se é jovem, leia-se aqui adolescente, o tamanho da bunda é o que importa. Você só quer saber de bolinar aquelas colinas frondosas e arredondadas da gatinha ao seu lado, e isso é tudo o que importa pra você. Não importa caráter, beleza do rosto, voz, nada. Só a bunda. Você só olha pras bundas, só pensa nas bundas, e alguns só falam com as bundas. E além de bolinar, você precisa que seus amigos saibam que você está bolinando aquele monumento à lascívia da, digamos, Claudete. Você quer que todos vejam sua (dela) bunda. É só isso o que importa.

Já quando abandonamos a adolescência e adentramos (parem de pensar em bundas) na vida adulta, lá pelos vinte e pouquinhos, já temos plena consciência de que a bolinação é questão de tempo e não nos apressamos mais atrás das bundas enormes, carnudas, gostosas, polpudas, deliciosas, enfim e voluptuosas. Nos preocupamos com o futuro. Com as bundas mais ajeitadinhas, que não tenham uma tendência a aceitar a gravidade de maneira passiva e complacente. Pensamos além. Pensamos que aqueles montes verdejantes e empinados de hoje podem virar os pântanos empertigados e arenosos de amanhã. E nos preocupamos então com o formato e a, digamos, consistência das bundas.

 

Chegando aos trinta já vimos, tateamos, mordemos, beliscamos, bolinamos e apalpamos tantas bundas que isso já não é mais a prioridade em nossas vidas. Nem mostrar pros amigos, porque agora, ao contrário do que pensávamos aos dezoito, nós já temos consciência de que nossos amigos querem e vão tentar apalpar e mordiscar as nossas (delas) bundas. Então agora fazemos questão de não fazer tanta propaganda. A bunda para o sujeito que chega aos quase trinta é como desembaçador traseiro ou quinze porta objetos: você não deixaria de comprar um carro que não tivesse isso, mas se tiver é muito melhor.

Nessa fase da vida queremos sossegar, e os rostos e o caráter rivalizam com as bundas em importância. Até porque, aos quase trinta já temos criatividade e experiência o suficiente para saber que outros, digamos, atributos menos aparentes das mulheres são tão ou mais importantes que a bunda. Mas, como eu disse aí em cima, se encontramos um carro confortável, confiável, fiel, com quinze porta objetos, desembaçador traseiro e nove encostos de cabeça nos bancos traseiros, tanto melhor.

Depois do trigésimo ano de vida todo homem faz, inexoravelmente, dezoito anos de novo. E volta a querer bundas grandes, bundas enormes, bundas carnudas, etc. Exatamente como na adolescência. E arruma amante gostosa, paga plástica pra mulher e volta a comprar revistinha de sacanagem. E dos trinta aos cinqüenta o homem se mantém nos dezoito.

E aos cinquenta ele volta à realidade, e faz cinquenta e um. Nessa fase da vida os joelhos já não têm a firmeza de antes, as costas já não têm a rigidez de outrora e a cabeça te deixa na mão sempre que você precisa. O que você menos quer agora é usar as palavras “firmeza”, “cabeça” e “deixar na mão” na mesma frase.

Então a bunda passa a ser como um rolex: ele vê as horas do mesmo jeito que seu relógio de dez pratas do camelô veria, mas todos sabem que você tem um rolex. Você sabe que já não vai mais usufruir daquela bunda como dantes o faria, mas quer que todos saibam que se você quisesse – ou pudesse – aquela bunda estaria em maus lençóis, completa e ilimitadamente a mercê de sua lascívia e de seu desejo ardente e pulsante.

Depois dos sessenta o ideal seria uma bunda que lavasse, cozinhasse, passasse, trouxesse seus chinelos, fizesse um café nem fraco nem forte, não passasse na frente da TV na hora do futebol e não pegasse o caderno B do jornal enquanto você lê o resto, afinal de contas, o jornal é uma unidade, e quem está lendo agora é você. Aqui a bunda se torna indispensável, e chega a ser perigosa.

Aos que têm um coração fraco ou nervos delicados, sugiro nessa fase da vida esquecer que a bunda existe e criar novas formas de diversão e luxúria, como a bocha, a alimentação aos pombos em praças e o deixamento de toalha em cima da cama sem barreiras. Esse último, porém, só deve ser executado na ausência da patroa, principalmente se ela, na juventude, era uma orgulhosa dona de uma bela bunda. Mulheres assim costumam se tornar donas de casa matronas, e algumas até violentas. Meu conselho, a partir desta idade, é se resignar, comprar um travesseiro em formato de bunda e contratar uma enfermeira gostosa para dar inveja nos amigos. E se você for casado, arrume uma empregada gostosa que lave, passe e cozinhe que sua mulher não irá se opor. Até porque, nessa idade ela vai preferir a bunda da empregada na reta do que a dela. Se bem, na sua idade, a reta já não é lá tão reta…

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Léo Luz on March 21st, 2011

           MIRIAM ESTÁ SENTADA NO SOFÁ, DE FRENTE PARA PAULO, E FALA AO TELEFONE

 

MIRIAM – Paulo, vem direto pra casa! Eu quero falar com você! COM VOCÊ, ouviu?

 

          MIRIAM DESLIGA O TELEFONE COM RAIVA, SENTA NO SOFÁ E CRUZA OS BRAÇOS SÉRIA, ENQUANTO PAULO, SENTADO NO SOFÁ, OLHA PARA ELA COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO. A CAMPAINHA TOCA. MIRIAM VAI ABRIR A PORTA, É PAULO. ELA ABRE A PORTA, OLHA PARA PAULO E FECHA A PORTA, IRRITADÍSSIMA. VAI ATÉ A MESA DE CENTRO, PEGA O TELEFONE E LIGA NOVAMENTE.

 

MIRIAM – Paulo, eu quero falar COM VOCÊ? Tá ouvindo? Você? Não era você, não dava tempo que você ter chegado, seu cínico! E vem logo! Tchau!

 

          PAULO OLHA PARA ELA COMO QUEM NÃO PODE FAZER NADA.

 

          PASSAGEM DE TEMPO.

 

          BARULHO DE CHAVES DO LADO DE FORA. PAULO ENTRA E MIRIAM JÁ COMEÇA A FALAR. ENQUANTO ELA FALA, PAULO FAZ UM SINAL PARA O PAULO QUE ESTAVA NO SOFÁ, E ESTE SAI DA SALA E VAI PARA A COZINHA.

 

MIRIAM – Paulo, não agüento mais! Maldita hora em que eu fui reclamar que você andava meio ausente, que chegava tarde em casa. Maldita hora!

PAULO – Por que, mozico?

MIRIAM – Não vem com essa de Mozico! Não agüento mais esse monte de clone!

PAULO – É pra te ajudar e pra você se sentir menos sozinha, mozico. E não são clones, eles são eu. Eu faço cópias de mim mesmo, mas não são cópias mesmo, eles são eu. Todos eles!

MIRIAM – São você é o cacete! Você é você e eles são eles! E eu não consigo tratar eles como se fossem você! Eu to falando com você no telefone que to com saudade, e de repente me vem um de vocês pelado pra cima de mim! Não é você! Não dá!

PAULO – Mozico, sou eu sim.

MIRIAM – Não é, Paulo! Não é! Eu já acho estranho você fazer cópias pra lavar a louça, levar o cachorro pra passear ou buscar as crianças na escola, imagina uma cópia pelada aparecer de repente no meio da casa! Se põe no meu lugar!

PAULO – Eu ia adorar várias Miriams peladas por aí…

MIRIAM – Cala a boca, Paulo! Eu to falando sério! Você é você e eles são eles! Eu prefiro um marido ausente do que vários maridos ao mesmo tempo! Eu não consigo, Paulo, não dá!

PAULO – Tá, amor, vou fazer menos… Mas achei que fosse te agradar…

MIRIAM – Me agradar, Paulo? Eu quero VOCÊ, e não essas cópias. E não vem com essa de que eles são você, eu sei muito bem quando é você.

PAULO – É, eu não consigo mesmo te enganar. Vou parar, tá? Nada mais de cópias nessa casa!

 

          NISSO A CÂMERA ABRE A UMA CÓPIA DO PAULO ESTÁ SENTADA NO SOFÁ, VENDO TV E COMENDO PIPOCA. PAULO OLHA PARA ELE COM AR DE REPROVAÇÃO E ELE SE LEVANTA RESIGNADO E SAI PELA PORTA.

 

MIRAM – Sério, amor. Eu te amo, mas só você. Eu sei quando é você. Não consigo nem conversar direito com eles.

PAULO – Promessa é dívida. Sem cópias em casa daqui pra frente.

MIRIAM – Promete?

PAULO – Prometo.

MIRIAM – Tá. Vamos dormir então, to morrendo de sono.

PAULO – Ah, amor, eu to com umas coisas pra fazer, uns relatórios. Pode ir, daqui a pouco eu vou.

MIRIAM- Tá, mas não demora. E nada de mandar cópias peladas pra cama comigo. Quero o senhor lá, nada de cópia

PAULO – Sim, senhora!

 

           MIRIAM SAI E VAI PARA O QUARTO. PAULO FICA PARADO, COMO SE ESTIVESSE PENSANDO NO QUE ELA FALOU. NISSO, ALGUÉM BATE NA PORTA E MIRIAM FALA LÁ DE DENTRO.

 

MIRIAM (OS) – Quem é, amor?

PAULO (SEM ABRIR A PORTA, MAS INDO NA DIREÇÃO DELA) – É o entregador, amor. É que eu pedi pizza do caminho, pra chegar mais rápido.

 

          PAULO ABRE A PORTA E VÊ PAULO DO LADO DE FORA. ELE SAI FURTIVAMENTE E FECHA A PORTA COM MUITO CUIDADO.

 

PAULO QUE ACABOU DE CHEGAR – E aí, como foi? Odeio DR, cara, putz. Me conta o que ela falou pra ela não desconfiar depois e tá liberado.

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Léo Luz on March 21st, 2011

Marcus e Rochelle trabalhavam juntos há um ano. Pelo fato de Rochelle ser casada à época em que se conheceram, nunca houve nada além de amizade entre eles. Porém, três meses depois de se conhecerem Rochelle terminou o casamento, e aí o papo mudou. A tensão sexual entre eles era palpável, sem trocadilhos. Eles se esbarravam nos corredores, se falavam por e-mail, trocavam olhares lascivos, mas tudo na maior discrição e subjetividade.

Até que um dia, em uma festa, a tensão palpável emprestou o adjetivo “palpável” à bunda de Rochelle, que estava sendo efusivamente apalpada por Marcus. Um olhar desatento sobre os dois deixaria dúvidas sobre haver ali uma, duas ou três pessoas. O fogo era tanto que às vezes se pegavam (!) tentando tirar a roupa um do outro, em público, até que se lembravam que estavam em público. Até que Rochelle deu a idéia de irem para a casa de Marcus, mas este lembrou que estava sem luz. Não que eles fossem usar luz, mas não ter água gelada, comida nem TV não era uma perspectiva das mais agradáveis. Então Marcus sugeriu que fossem a um Motel. Rochelle aceitou, e partiram para lá, no carro de Marcus.

            Se o clima na festa já estava nas alturas, imaginem vocês dentro do carro. Zíperes não duraram uma passagem de marcha (!) para serem abertos, e assim, neste clima de cena de filme pornô, chegaram ao Motel. Já no estacionamento as mãos estavam cheias e nenhuma delas era com o volante do carro. Então, em um momento onde quem olhasse de fora só veria Marcus, o carro bateu em algo. Era outro carro. Marcus saiu desesperado, achando que aquele acidente ia melar (ou não ia deixar melar) sua noite. Mas quando saiu percebeu que o cenário não era tão ruim: apesar de a batida ter sido consideravelmente forte, ele reconhecera o carro: era de João, um dos seus melhores amigos. Querendo pregar uma peça no amigo, Marcus entrou no carro e seguiu para a sua noite de amor, luxúria e devassidão, e somente no dia seguinte ele ia avisar ao João que aquela batida no Motel havia sido ele.

            Marcus aproveitou a sua noite, afinal, era um ano de tesão incubado. No dia seguinte ligou para o escritório de João, no que foi avisado pela sua secretária de que ele havia viajado. Nossa, ele era rápido, passou a noite no Motel e viajou logo cedo. Ele ligaria outro dia. Três dias depois, na segunda, Marcus voltou a ligar. “O Dr. João ainda estava viajando”. Esses congressos de médicos que o João ia duravam toda a semana mesmo. Talvez ele voltasse até a sexta. Marcus deixou recado. João era casado e a mulher dele não gostava muito dos seus amigos, por isso Marcus não ligara para sua casa. Mas João era apaixonado por ela, a ponto de já ter lhe confidenciado que não saberia o que fazer se ela o traísse, ou mandasse ele escolher entre ela ou os amigos.

            Na quarta-feira João ligou de volta para Marcus, e marcaram um café. Marcus chegou primeiro e, quando João vinha se aproximando da mesa, com uma cara de muito preocupado, Marcus já falou logo, em um tom sério, para assustar João:

- Cara, tenho que falar uma coisa séria com você – Disse Marcus, muito sério e cínico.

- Puta que pariu, nem me fala. Só problema. Tá sabendo do meu carro? – Perguntou um indignado e revoltado João

- Sabendo de que? – Mais cinismo não podia haver.

- Do meu carro.

- Não, o que aconteceu? – Adendo: mais cinismo podia haver sim.

- Porra, Marquinho, foda. Eu viajei pra Argentina pra um Congresso, e de lá fui pra Miami comprar uns equipamentos novos pro consultório. Fiquei fora vinte dias.

- Vinte dias? – O cinismo dera lugar à surpresa. Havia somente dez dias que ele batera no carro de João.

- É, vinte dias, vinte e um, sei lá. Mas o pior não é isso. O pior é que eu deixei o carro com a Martha, milha mulher, e um filho da puta deu uma porrada no carro quando ela tava no supermercado. Filho da puta. E ela disse que o viado nem deixou bilhete nem nada, quando ela voltou do mercado o carro tava batido, no estacionamento. Filho da puta.

- Filha da puta…

- Hein? Filho da puta mesmo, né? Se eu pego o viado.

- É, se você pega…

- Mas então, o que você queria falar sério comigo?

 

            Por alguns segundos que pareceram três semanas, Marcus pensou em contar a verdade, em não contar, em sair correndo e até em fingir um ataque cardíaco. Mas, dada sua amizade com João, o companheirismo que João demonstrava indo a todos os jogos do Vasco com ele, ele tomou a decisão mais acertada:

- Comprei ingressos pra todos os jogos do Vascão no Carioca pra nós dois! Pra cima deles, Vascãããão!

 

            E os dois se abraçaram e começaram a cantar músicas sobre o Vasco. Ele decidira que era melhor que João vivesse na ignorância do que lhe contar a verdade, perder o amigo, ver o amigo perder a mulher, e o pior: a história seria longa e ele tinha marcado com Rochelle no Motel dali a vinte minutos. First things first.

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Léo Luz on March 21st, 2011

           Henrique estava fazendo compras no supermercado quando de repente seu telefone toca.

 

- Alô, Henrique?

- Alô, quem é?

- Cara, você não me conhece. Meu nome é Gilberto. É o seguinte: eu preciso sair com uma mulher gostosíssima hoje, mas eu sou casado. E na hora que a minha mulher me ligou eu fiquei nervoso, abri a agenda de telefones de um cara aqui do lado, vi seu telefone, dei seu número pra ela e falei que você era meu amigo e que eu ia tomar um chopp com você.

- Você tá zoando, né? Quem te deu meu telefone pra você passar trotezinho?

- Cara, não é trote. Eu trabalho em uma empresa de telemarketing, e seu nome tava na lista do cara aqui do lado par te ligar pra oferecer cartão de crédito. Aí a minha mulher me ligou, eu fiquei desesperado, abri a agenda e inventei isso.

- Não, amigo, você só pode estar de sacanagem. E eu não to achando nenhuma graça, eu estou fazendo compras, ocupado. Eu tenho mais o que fazer. Tchau!

- Espera, espera! Me ajuda, cara, não custa nada! É só você falar pra minha mulher que eu to com você quando ela ligar. Inventa que eu fui estacionar o carro, sei lá, só confirma, porque ela tá achando que eu menti!

- Mas você mentiu.

- Claro, porra! Mas não é pra ela saber, né?! Eu não posso perder essa chance, cara. Eu quero comer essa mulher há anos!

- Mas você não tá bem com a sua mulher? Vai pra casa, cara, porra!

- Claro que tô bem, minha mulher é linda! Mas por favor, sem lição de moral. Você é homem, sabe do que eu to falando. Não posso deixar de sair com essa mulher.

- E se ela desconfiar?

- Não vai desconfiar nunca, relaxa.

- Puta que pariu… Tá, mas faz o seguinte: me manda uma mensagem explicando isso. Eu não faço essas coisas, vou ficar nervoso, me enrolar. Manda uma mensagem pra me guiar melhor.

- Poorra, cara, nem sei como agradecer! Já to mandando a mensagem! Valeu mesmo, te pago um chopp depois! Ela não vai nem desconfiar!

- Precisa não, mas pára com isso. Sossega depois, para de enganar sua mulher.

- Depois dessa prometo me comportar! Sério.

- Falou, manda a mensagem aí que eu te salvo. Mas não acostuma.

- Valeu, mermão. To mandando. Abraço e valeu, salvou a minha vida!

- Valeu, té mais.

 

            E em alguns segundos a mensagem de Gilberto chega ao celular de Henrique, dizendo o que ele deveria falar para que ele pudesse desfrutar da noite de amor com a tal gostosa. Umas duas horas depois o telefone toca:

 

- Alô, quem fala?

- A senhora quer falar com quem?

- Eu queria falar com o Gilberto, eu sou esposa dele. Ele me disse que estaria com você porque ele esqueceu o celular no banco.

- Olha, como é mesmo seu nome?

- Rita

- Olha, Rita, é o seguinte. Seu marido tá te traindo.

- O que? Isso é alguma brincadeira, é!?

- Não. Você pode encontrar comigo no Shopping Norte Center?

- Olha, se isso for brincadeira você vai se dar mal!

- Não é, garanto.

 

            Meia hora depois eles se encontravam no Shopping. Henrique disse a Rita que ouviu Gilberto tramando a mentira com Pádua, o dono daquele celular. Só que Henrique saíra para casa e esquecera o celular no trabalho. Ao ver que Rita estava ligando, Henrique ficou com raiva da mentira de Gilberto e atendeu o telefone, e lhe contou toda a verdade. Rita ficou uma fera, só falava em terminar tudo, em se vingar. Henrique a convidou a tomar um chopp para relaxar. Eles foram, conversa vai, conversa vem, Rita com raiva de Gilberto resolveu dar o troco e acabou indo para um Motel com Henrique. Passaram quase a noite toda lá, e Rita ainda chegou em casa antes de Gilberto, que chegou horas depois, na ponta dos pés. Troco dado, Rita decidiu não brigar nem terminar, mas manteve o caso com Henrique.

            No dia seguinte, Gilberto feliz da vida ligou para Henrique para lhe pagar o tal chopp:

 

- Cara, minha noite foi sensacional! Puta que pariu! Ela não desconfiou?

- Nadinha.

- Porra, vou te pagar dez chopps! Tu pode hoje à noite no Allonso´s?

- Cara, até posso mas vamos deixar pra outro dia. Bebi muito chopp ontem e to de ressaca.

- Ressaca moral ou de verdade? Fez o que não devia, é?!

- Eu nunca faço o que não devia, Gilberto. Nunca.

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Léo Luz on March 21st, 2011

 

- COMO ASSIM VOCÊ JÁ TRANSOU COM UMA MULHER?

 

 

- Como assim “como assim”? Transei transando, quer que eu desenhe?

- Olha só, quinze minutos sem gracinha, tá?! A última coisa que eu preciso a essa altura do campeonato é piadinha sem graça…

- Tá bom então, vamos dissertar sobre “O sexo entre mulheres: suas variações e seus desdobramentos”.

- Vai se foder, Mariana, porra! To falando sério! Se põe no meu lugar!

 

          Duas crianças passam atrás deles correndo atrás de uma bola.

 

- No seu lugar? Não dá, desculpa, não vejo uma atitude idiota e preconceituosa como essa há uns… cem anos!

- Antiquado? A garota que eu to saindo acaba de me falar que já transou com uma mulher, eu fico curioso, e sou antiquado?

- Primeiro: curioso não, você fez – e ainda ta fazendo – um escândalo; Segundo: uma não, três.

- Porra!, três? E você vai me contar agora ou vai esperar mais alguns minutos pra falar que tinha algum pequinês ou algum jogador de basquete vestido de colegial na história?

- Vai se foder…

- Sério, pelo amor de Deus agora! Sério!

- Sério o que? Você acha que eu to brincando? Meu Deus, como eu fui capaz de tirar sua virgindade?! Todo castigo pra corno é pouco…

- Achar não acho, mas espero muito que esteja.

- É, mas não estou, é sério.

 

          As crianças voltam atrás da bola.

 

- Ma-Mas como, por que?

- Bom, Pedro, “como” é muito complexo pra um semi-virgem como você, depois te mando uns gráficos de Excel com umas animações… E quando, deve ter uns sete, oito meses. E por que, tenho a ligeira impressão de que “por que eu quis” não vai te satisfaze…

- Então já que você sabe, pode continuar…

- Ah, Pedro, quer saber, meu bom humor acabou! Chega disso. Se quiser entender, entender, se não quiser, procura alguma carolinha virgenzinha como você.

- (Gritando) Porra, Mariana! Dá um tempo! A gente ta ficando, você foi minha primeira mulher, a gente tem se dado bem pra caralho, e agora você vem me dizer que já transou com uma mulher???

 

          As crianças estão paradas agora, atrás deles, fitando Pedro e prendendo o riso.

 

- (Gritando e gesticulando com as crianças) O que foi, porra?! Saí daqui!!

 

          Mariana ri, gargalhando. Quando percebe que Pedro está realmente irritado, força para parar de rir.

 

- Dá pra explicar logo, Mariana?

- Pedro, é o seguinte: eu tava meio desiludida com homens e tal, e rolou… Mas eu vi que não era isso que eu queria.

- E precisou fazer três vezes pra ver que não gostava???

- (…)

- E como uma mulher transa com uma mulher? Beijar, lamber, etcétera até vai, mas transar? Não dá!

- Porra, você é muito mais idiota do que eu pensava. Muito mais. Claro que dá imbecil! Transar não é só o que você pensa. Tem todo um clima, toques e tal…

- Ah é?! Então, senhora Mariana, sinto lhe desapontar, mas eu não era virgem. Todo dia eu ia roçando na minha vizinha gostosa no ônibus: mó climão, altos toques… Então eu já comi minha vizinha! Só acho que ela não vai gostar muito de saber disso não…

- Putaquepariu… Quer saber? Enchi dessa sua babaquice, não quero um cara que pensa assim do meu lado. Não to acreditando que tirei a virgindade de um idiota como você! Vai se foder!

- Mari, desculpa, desculpa. Foi mal mesmo, é que porra, é foda pra mim. Eu te amo.

- Pedro, eu também te amo. Mas se você tivesse falado que já transou com um cara, eu só não ia querer que isso acontecesse enquanto estivéssemos juntos. Só isso.

- Ta bom então, vamos esquecer isso, okay?

- Como se você fosse conseguir…

- Claro que consigo… Só mais uma pergunta: você comeu ou deu pra elas? Bom, eu tenho que saber, vai que você comeu e vai querer se engraçar comigo também…

- (sarcástica, estendendo o dedo médio para Pedro) É, até por que, eu até poderia me engraçar com você, do jeito que você é tapado, ia achar normal e ia até gostar…

 

         Pedro faz cara de enfado. Eles se abraçam, se beijam e saem andando. As crianças ao fundo, batendo palmas e jogando a bola pro alto.

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